Quando o jornalismo perde o freio e dá de cara com o ridículo

O jornalismo esportivo brasileiro é capaz de transformar figuras inexpressivas em grandes heróis, mas também costuma criar vilões para seus enredos. Em um de seus mais recentes, no jogo entre Santos e Vasco, válido pela quarta rodada do Campeonato Brasileiro, o personagem da vez foi Sidão.

O Goleiro vascaíno tomou três gols santistas, sendo o primeiro deles resultante de uma falha tentativa de saída de bola do próprio arqueiro, que sem querer entregou o ouro para Diego Pituca fazer seu tento de cobertura.

O placar do jogo realizado no Pacaembu era o menor dos males. O pior mesmo ficou para a votação na internet do “Craque do Jogo”. Como a escolha era livre, milhares de internautas resolveram apelar para a “zoação”, elegendo Sidão o “melhor em campo”.

Ao final da partida, após ser entrevistado pela Rede Globo, o goleiro do Vasco recebeu a inglória premiação das mãos da repórter da emissora, também visivelmente constrangida com aquela lamentável situação. E não era para menos. A tentativa de premiar o jogador deu lugar à contribuição para a chacota nacional de dois profissionais.

Tanto Sidão quanto a repórter da Globo tiveram uma exposição desnecessária de suas imagens, o que mostra o quanto o jornalismo está cada vez mais regredindo e persistindo no erro de dar mais ênfase ao ibope, mostrando um escárnio ao vivo da figura do goleiro e da profissional de comunicação.

É compreensível que hoje, com a convergência das mídias, o fato de aliar informação com o entretenimento, a fim de alcançar o “infotenimento”, o envolvimento do público com o produto e os eventos esportivos, precisamos inovar nas pautas, trazendo mais ineditismo para a cobertura esportiva. Mas até onde é válido promover “sacanagens” como essa que vimos na tarde deste domingo, na Rede Globo?

No caso de Sidney Aparecido Ramos da Silva, o Sidão, aos 36 anos, o atleta consolidou sua carreira de jogador depois de ótimas campanhas atuando nos times do Grêmio Osasco Audax e Botafogo. Mas antes dos dias de glória, vieram os anos de chumbo, nos quais teve de passar por debaixo da catraca do ônibus para gastar seu salário com bebida, fez o uso de drogas e caiu em depressão por se sentir culpado pela morte da mãe.

Mesmo após recuperar-se na religião, abandonar o futebol aos 25 anos para buscar sustento para a família trabalhando como segurança, regressar ao esporte a convite do Taboão da Serra, se destacar nos clubes citados acima e viver momentos oscilantes em São Paulo e Goiás, o arqueiro segue um árduo destino, tendo que aguentar o fardo da gozação, sendo personagem (ou persona non grata) de mais uma polêmica envolvendo seu desempenho pífio nos jogos.

O fruto dessa e outras “histórias de vilões” no futebol (vide Barbosa, goleiro brasileiro da Copa do Mundo de 1950, Alex Muralha, entre outros consagrados e destroçados por completo) tem como uma de suas origens os constantes artifícios criados por torcida e mídia para diminuir o valor de um jogador como profissional e pessoa.

São fatores como esses que representam a imagem de um Brasil que ainda não aprendeu a valorizar sua verdadeira e oculta cultura futebolística de “Pátria Amada das Chuteiras”. É necessário a mídia em geral refletir seu papel, vendo até quando vai o limite da brincadeira e o quanto isso é ou não válido para o jornalismo esportivo.

Todavia, enquanto isso não acontece, seguimos nessa velha e desgraçada toada, na qual perdemos o freio do bom senso e damos de cara com o muro do ridículo (ou das lamentações, dependendo do ponto de vista).

Por Leandro Massoni