Ary Barroso, o narrador e sua inseparável gaitinha

Um dos lendários personagens do rádio esportivo brasileiro também fez história na música. Ary Barroso, o “speaker da gaitinha” empolgava torcedores (em especial do Flamengo, seu clube de coração) e ouvintes com suas composições, que foram gravadas mais de 30 vezes por Carmen Miranda.

O filho do deputado estadual e promotor público João Evangelista Barroso e Angelina de Resende nasceu em Ubá, localizada a 290 quilômetros da capital mineira Belo Horizonte. Aos oito anos de idade, após ficar órfãos dos pais, passou a morar com a avó materna.

Seu encantamento pela música brotou em sua vida ainda quando jovem. Aos 12 anos, já exercia o ofício de pianista auxiliar no Cinema Ideal, em Ubá. Três anos mais tarde, fez a primeira composição: “De longe”.

Sua trajetória toma outro rumo em 1920, depois de saber da morte do seu tio, Sabino Barroso, ex-ministro da Fazenda, que deixou uma herança avaliada em 40 milhões de reis. Com isso, Ary resolve encarar um novo desafio. Aos 17 anos, muda-se para o Rio de Janeiro e é aprovado na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro – atual Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

No meio acadêmico, conhece importantes colegas que o inspiraram a seguir tanto na música quanto no esporte, tais como Luís Galotti (jurista, dirigente esportivo e posteriormente ministro do STF), Gastão Soares de Moura Filho (dirigente esportivo) e Anésio Frota Aguiar (jurista, político e escritor).

Entre idas e vindas ao curso de Direito, e sempre levado à vida boêmia, passa a trabalhar como pianista no Cinema Íris, no Largo da Carioca, e mais tarde, na sala de espera do Teatro Carlos Gomes, com a orquestra do maestro Sebastião Cirino.

No final dos anos 1920, Barroso decide se aventurar mais a fundo no mundo da música popular. Além de ser contratado pela orquestra do maestro J. Spina, de São Paulo, para uma temporada em Santos e Poços de Caldas, compõe seus primeiros sucessos: “Amor de mulato”, “Cachorro quente” e “Oh! Nina”, em parceria com Lamartine Babo.

Em 1930, Ary Barroso sagra-se vencedor do ” Grande Concurso de Música Popular”, para escolha de canções carnavalescas, promovido pela Casa Edison e pelo jornal Correio da Manhã, com a marchinha “Dá Nela”.

Seu sucesso na música logo chama a atenção da turma dos esportes. Sabendo que o compositor era amante do esporte bretão e flamenguista de paixão, a Rádio Phillips o convida para ser pianista em 1932. Em pouco tempo, Ary assume as funções de locutor esportivo, animador e humorista. 

E foi como locutor que Barroso passou a ficar mais conhecido, ainda mais com o uso de uma gaita. Assim que os gols aconteciam, o narrador tocava seu instrumento para comemorar os resultados no placar, o que lhe rendeu o apelido de “speaker gaitinha”. Ouça o vídeo no link do Youtube (colocar link).

Os anos foram passando e a carreira de Ary na música e no esporte ia de vento e popa. Para consagrar de vez sua reputação no meio artístico, escreve em 1939 o que viria ser um dos maiores sucessos na época: “Aquarela do Brasil”.

Gravada pela primeira vez por Francisco Alves e posteriormente por Carmen Miranda e Frank Sinatra (e mais tarde por João Gilberto, Caetano Veloso, Tim Maia, Gal Costa, Erasmo Carlos e Elis Regina), a canção foi composta por Barroso em uma noite na qual ele estava impedido de sair de casa devido a uma forte tempestade.

Os esforços do compositor e locutor começaram a ser reconhecidos pela sociedade que o acompanhava em seus ofícios. Recebeu o diploma da Academia de Ciências e Arte Cinematográfica de Hollywood pela trilha sonora do filme animado “Você já foi à Bahia?” (Walt Disney), em 1944.

Ao mesmo tempo, Ary Barroso seguia paralelamente o caminho do rádio, realizando por vários anos o programa “A Hora do Calouro”, na Rádio Cruzeiro do Sul, do Rio de Janeiro, no qual incentivava novos talentos musicais.

Mesmo com o êxito da música Rio de Janeiro, em 1945, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor canção original, o homem que transitava perfeitamente nos gêneros MPB, choro, xote, marchinha, foxtrote e samba (além de ter inaugurado o estilo samba-exaltação) sofria de problemas com o alcoolismo, o que agravava seu estado de saúde.

Apesar dos males, nada o parava. Não bastava ser eternizando pelo seus talentos e expressões como “Ih, lá vem os inimigos. Eu não quero nem olhar”, quando se recusava a narrar um gol contra o rubro-negro carioca, Ary foi homenageado pela escola de samba Império Serrano com o enredo “Aquarela Brasileira”, também em alusão às belezas naturais e culturais das diversas regiões do país.

Pouco antes de entrarem na avenida, em 9 de fevereiro de 1964, os integrantes da Império Serrano receberam a lamentável notícia da morte de Barroso, por consequência de uma cirrose hepática. Por alguns instantes, a bateria parou de tocar, em homenagem ao compositor e locutor, que está enterrado no Cemitério de São João Batista.

O “speaker gaitinha” assim compôs seu legado, que foi repartido entre a música e o rádio esportivo brasileiro.

Por Leandro Massoni