A melancólica realidade amazonense descrita em meio à Selva do Futebol

Escrito pelos jornalistas Raul Andreucci e Tulio Kruse, a obra inaugurou os trabalhos da editora No Barbante – idealizada pelo primeiro autor – no ramo da literatura de futebol.

A realidade do futebol amazonense às vésperas da inauguração da Arena da Amazônia – que serviu como um dos palcos para a Copa do Mundo no Brasil, em 2014 – e os casos de extração ilegal de madeira que sustenta as estruturas desse mesmo estádio foram os assuntos abordados em um extenso trabalho de reportagem intitulado “A Selva do Futebol”. Escrita pelos jornalistas Raul Andreucci e Tulio Kruse, a obra inaugurou os trabalhos da editora No Barbante – idealizada pelo primeiro autor – no ramo da literatura de futebol.

Editado pelos irmãos Raul e João Andreucci, o livro conta com o projeto gráfico desenvolvido pelo coletivo oitentaedois (que inclusive, fez o logo da editora), enquanto que as artes da capa e da parte interna são de autoria de André Bonani. Tem ainda o prefácio dos jornalistas André Ribeiro (integrante do Memofut e editor do blog www.literaturanaarquibancada.com) e Breno Costa (fundador do BRIO).

Confira a entrevista na íntegra:

Jornalista em Campo – Como surgiu a ideia do livro?

Raul Andreucci – O livro A Selva do Futebol é uma adaptação, por ser um formato diferente do que foi originalmente publicado, como reportagem long form no site Brio, em 2014 (e atualizado, migrando para o Brio no Medium, em 2015); e, ao mesmo tempo, uma extensão, pois apresenta trechos ausentes dessa mesma versão inicial.

A ideia de trazer A Selva do Futebol novamente à tona veio com a sensação de que eu, Raul Andreucci, e o outro autor, Tulio Kruse, não sentíamos que suas histórias e ideias tinham se esgotado por completo, vide a situação atual do futebol brasileiro, de dirigentes inescrupulosos, administrações amadoras e  trabalhadores enquanto pé-de-obra, e do meio ambiente, cada vez mais destratado, desmatado e deplorado, como recentemente vimos em imagens chocantes de queimadas das florestas (vivemos uma distopia tão real que parece surreal!); ou atingido seu potencial, espalhando-se por um número de pessoas mais considerável e que, na nossa opinião, tinham, sim, interesse nesses temas e em uma boa literatura como forma de conhecimento e transformação. E, claro, publicar A Selva do Futebol também surgiu como uma oportunidade de inauguração da No Barbante, editora dedicada ao futebol que ensaiava sair do papel.

Mais especificamente sobre como surgiu a ideia de investigar, pesquisar e escrever, primeiro, a reportagem que virou livro… Bem, veio de um incômodo e de uma dúvida. Não conseguia entender o motivo da escolha de Manaus como uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. Estava desenvolvendo uma Dissertação de Mestrado na PUC-SP que abordava o Mundial como tema. Sabia que existiam regras de candidatura, critérios técnicos (ainda que, na minha conclusão, fossem completamente ignorados quando conveniente a quem decidia) e não era exatamente esse aspecto que pretendia entrar. Queria entender, com os jogos prestes a rolar, poucos meses antes do pontapé inicial, como era o futebol daquelas bandas. Decidi, então, viajar até lá e colher histórias de uma forma mais livre, sem pauta prévia, como jornalistas costumam fazer, formulando hipóteses, para um mosaico que, ao menos, ajudasse a pensar o assunto. 

JC – Quais foram os principais desafios para a produção?

RA – Encontrei desafios no produção do livro como um todo. Afinal, eu era (e ainda sou) um marinheiro de primeira viagem no mundo editorial. Talvez por isso, inclusive, tenha demorado mais do que eu gostaria. Ou mais do que eu coloquei como parâmetro ideal, ignorando que cada um tem o seu tempo e existe ainda um tempo dos novatos e mesmo dos independentes, que é o nosso caso. Tinha uma ideia das etapas de produção, acreditando, erroneamente, que seria como em jornal, revista ou site… Errei feio. Não dimensionei apropriadamente o tamanho e o tempo de cada momento. Foi (e está sendo) um grande aprendizado. O bom é que pude me usar como cobaia (com o consentimento e generosidade do Tulio), carregando tudo o que passei para a produção dos próximos livros.Na produção da reportagem, poderia entrar no mérito da viagem, por morar em São Paulo e existir uma reconhecida dificuldade de acesso a Manaus (inclusive por valores de passagem, pagas do próprio bolso) ou mesmo do acesso aos clubes, dirigentes ou jogadores (mas mesmo com ameaça de morte, a maioria se colocou à disposição), acredito, entretanto, que o maior desafio foi acreditar – e não desistir. Isso é um ponto que vale destacar.

Não fosse a insistência e essa força que sabe-se de lá de onde vem, a que uns chamam de fé mesmo ou convicção, eu nem entraria no avião. Os meios de comunicação com quem entrei em contato não se interessaram ou mesmo tiveram a dignidade de responder e/ou se posicionar. E mesmo colegas jornalistas, em vez de encorajar, apoiar ou criar pontes, mais criavam obstáculos, empecilhos e medos que poderiam assustar qualquer um. Falta ao nosso Jornalismo, do qual me afasto cada vez mais, em direção ao mundo dos livros, coletividade, solidariedade e, principalmente, dignidade.

E não adianta falar em marcas, determinadas empresas ou veículos, enquanto forem pessoas que se prestam a tratar uns aos outros do jeito com que nos tratamos – ou melhor: destratamos.

Folha de rosto do livro “A Selva do Futebol”, de Raul Andreucci e Tulio Kruse | Foto enviada pelo primeiro autor/Editora No Barbante

Observação feita pelo entrevistado: ao compartilhar minhas respostas para esta entrevista com o Tulio Kruse, ele pediu apenas um adendo, justamente nesta pergunta, e que reproduzo em seguida: “Eu destacaria também o fato de este ter sido um projeto 100% autofinanciado desde as primeiras apurações. Viajamos à Amazônia cada um com suas próprias economias, e isso tem impacto no resultado. Quando eu estava entrevistando trabalhadores que haviam sido libertados de situações análogas à escravidão, em Goiás, me vi em situações que tive que deixar uma cidade mais cedo para não comprometer o orçamento com a diária no hotel. O dinheiro que consegui separar para a viagem foi gasto até o último centavo, e talvez com um borderô um pouco mais folgado o resultado fosse diferente. Minha ideia para este trabalho era explicar o caminho dos materiais na cadeia produtiva do aço através de histórias humanas, principalmente de operários, caminhoneiros e trabalhadores de carvoarias, e tudo isso só surgiu quando eu caí na estrada. Se eu tivesse ficado um ou dois dias a menos, talvez não conseguisse chegar em resultados básicos de apuração.”

JC – Como você vê a produção independente de livros reportagens de jornalismo esportivo?

RA – Ainda muito incipiente, dispersa e amadora. Existem poucas editoras com foco no esporte ou mesmo no futebol, que é o caso da editora No Barbante; pouco interesse de editoras mais consolidadas em investir em títulos desse nicho, a não ser em filões de biografia, autores renomados ou assuntos em pauta; altos preços para a publicação de um livro (as gráficas viajam na maionese, o papel é um monopólio que encarece os valores…) e prestação de serviços editoriais caça-níqueis (feitos de qualquer jeito, a toque de caixa e somente pelo dinheiro da sobrevivência de cada um).

Temos muitos livros com projetos gráficos, a meu ver, horrorosos (e isso é importante, sim, como estímulo, convite ao leitor e, ao mesmo tempo, em diálogo com o conteúdo, formando uma só obra, de fato) e, infelizmente, conteúdos sequer editados e/ou revisados (o que deixa livros gigantescos, pouco ou quase nada organizados, atrativos e mesmo capazes de sobreviverem de forma perene). E, por mais maluco que pareça, ainda assim, louvo esse livros. Porque, provavelmente, foram feitos por corajosos, gente que, por algum motivo, como eu, entenderam que aquela história precisava chegar a mais pessoas e fizeram o que estava a seu alcance, gastando poupanças, pedindo dinheiro emprestado ou fazendo vaquinha para chegar àquele livro.

Num momento de desdemocratização do país, sem falar em emburrecimento voluntário e desavergonhado mesmo, com o desmonte da Cultura, o repúdio à Arte e o desrespeito a qualquer traço de Humanidade, difícil imaginar que o cenário vá mudar drasticamente nos próximos anos. E nem por isso eu vou desistir. E não acho que os demais devam. Que os livros sejam publicados. Lidos. Vendidos. Emprestados. Compartilhados. Que só assim vamos sair das trevas. E às favas com as minhas idiossincrasias estéticas e conceituais. Primeiro, a revolução. Pelas ideias. Pelo amor. E pelos livros.

JC – E sobre a Editora No Barbante, qual linha editorial que vocês pretendem seguir?

RA – A editora No Barbante é dedicada ao futebol. Como gostamos de dizer, não a qualquer futebol. A um futebol com mais cores, profundidade e coração. Apoiados no tripé do Jornalismo, da Pesquisa Acadêmica e da Literatura. Começamos com A Selva do Futebol, trazendo uma história jornalística que, nem por isso, vale dizer, deixa de ser literária. O segundo livro, Plumas, Arquibancadas e Paetês: uma história da Coligay, da Luiza Aguiar dos Anjosvem de sua Tese de Doutorado na UFRGS. Sai entre março e abril de 2020. A ideia é que, seguindo a ordem, em 2021, tenhamos um romance de futebol. E nesse primeiro triênio, todo fim de ano lançaremos a contrAtaque, organizada pelo Lucio Branco, com ensaios, artigos e contos. 

Enumerei um monte de coisa, mas acabei fugindo da pergunta (rs). Vamos em busca de uma linha editorial que prime pelos episódios pouco explorados nas outras editoras, para além de fama, estrelato e sucesso que tenta fazer do futebol um show de celebridades ou asséptico em seu tatiquês (não que conversar sobre tática e técnica seja desinteressante, mas, pelo amor de deus, não existe apenas isso, né?). Estamos atrás de debates e discussões que as pessoas têm medo de fazer. Do mundo LGBT+, dos negros, das mulheres, do que pintar. Se fosse pra se esconder, nem editora a gente criava. 

Primeira parte do segundo capítulo do livro, intitulado “O canteiro de obras”| Foto enviada por Raul Andreucci/Editora No Barbante

Temos ainda prevista uma coleção com o Ludopédio. E outras possibilidades em vista. Não queremos, de modo algum, nos tornarmos o supra-sumo de qualquer coisa. Pelo contrário. Queremos parcerias, parceiros, criações e projetos coletivos para que se fortaleça a literatura de futebol, como parte importante do universo do futebol, com seu quinhão de contribuição. Vamos, sim, conversar com outras editoras, as de futebol, sim, desde que respeitosas e genuinamente interessadas em construções abertas, cheias de amor e, como disse, com solidariedade e coletividade. A gente tem esse quê de falar em amor, carinho, porque isso é, sim, importante, mas também não somos otários. E malandro é o que não falta, inclusive entre quem prefere se ver como produtor de mercadorias, em vez de agitador cultural e parte de um todo muito maior – ou vários todos, de futebol a literatura, cultura, arte e sociedade.

JC – Fale um pouco sobre o diferencial dessa editora.

RA – Acredito que explorei um pouco isso nas respostas anteriores. Posso acrescentar algo em relação à construção da editora que, como antecipei, foi feita com a ajuda de muita gente. Que se doou. Que doou efetivamente, na vaquinha do primeiro livro. E que colaborou acreditando numa ideia, no projeto. Esperando por um futuro que chegou, a editora pronta, o livro em mãos, ou envolvendo trocas em que todos crescemos juntos. Sem a parceria com o André Bonani, responsável pela ilustrações, o coletivo oitentaedois, que assina projeto gráfico e logo, e a força do João Andreucci, meu irmão, enquanto editor, jamais teríamos nos erguido para hoje poder dar esta entrevista como editora No Barbante

Quer saber mais sobre a No Barbante? Então, se liga!

Contatos:
medium.com/no-barbante
twitter.com/no_barbante
instagram + facebook: @nobarbante
Newsletter e demais informações: editoranobarbante@gmail.com
Vendas: www.clubemolotov.com

Por Leandro Massoni